terça-feira, 26 de junho de 2012

O virar do olhar

Nos primeiros dias tudo parecia diferente.

O meu quarto era o mesmo, a casa era a mesma, a rua ou a faculdade eram as mesmas, mas tudo estava fora do sítio.
A ideia de que teria de deixar tudo isto, todos os meus vinte e cinco anos de vida para trás, era aterrorizadora.
Quando observava a televisão e via mais más notícias, mais problemas económicos ou sociais, mais culpava aqueles que nos (des)governaram durante anos, daquilo que se estava a passar. Ver um pai sem poder trabalhar (sendo que este ama o seu trabalho), ver uma mãe desmotivada por o seu negócio não estar a render aquilo que deveria, é doloroso para qualquer filho que, por estas alturas, quase em desespero, resolve enviar candidaturas a tudo o que é proposta de trabalho na internet, para, num último fôlego, ficar no seu país. Ficar na sua vida.

Os dias foram passando, o olhar em relação a tudo isto foi mudando, aquilo que parecia uma descida ao Inferno, tornou-se, pouco a pouco, uma luz ao fundo do túnel.
A ambição de querer mais e melhor começa a ter um valor mais alto que os lugares ou a bandeira verde e vermelha. A tristeza pelas pessoas continua presente, mas, de uma forma diferente. Uma forma de esperança, uma forma de que, eu até poderei ser importante para essas pessoas e tentar ajuda-las, mesmo estando a milhares de quilómetros de distância.

"Nós temos de ir para o Brasil", exclamaram eles.

Mas lá eu serei feliz.


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