terça-feira, 26 de junho de 2012

O virar do olhar

Nos primeiros dias tudo parecia diferente.

O meu quarto era o mesmo, a casa era a mesma, a rua ou a faculdade eram as mesmas, mas tudo estava fora do sítio.
A ideia de que teria de deixar tudo isto, todos os meus vinte e cinco anos de vida para trás, era aterrorizadora.
Quando observava a televisão e via mais más notícias, mais problemas económicos ou sociais, mais culpava aqueles que nos (des)governaram durante anos, daquilo que se estava a passar. Ver um pai sem poder trabalhar (sendo que este ama o seu trabalho), ver uma mãe desmotivada por o seu negócio não estar a render aquilo que deveria, é doloroso para qualquer filho que, por estas alturas, quase em desespero, resolve enviar candidaturas a tudo o que é proposta de trabalho na internet, para, num último fôlego, ficar no seu país. Ficar na sua vida.

Os dias foram passando, o olhar em relação a tudo isto foi mudando, aquilo que parecia uma descida ao Inferno, tornou-se, pouco a pouco, uma luz ao fundo do túnel.
A ambição de querer mais e melhor começa a ter um valor mais alto que os lugares ou a bandeira verde e vermelha. A tristeza pelas pessoas continua presente, mas, de uma forma diferente. Uma forma de esperança, uma forma de que, eu até poderei ser importante para essas pessoas e tentar ajuda-las, mesmo estando a milhares de quilómetros de distância.

"Nós temos de ir para o Brasil", exclamaram eles.

Mas lá eu serei feliz.


sábado, 23 de junho de 2012

O dia em que o mundo continuou

Não me recordo ao certo do dia, nem do mês ou sequer da hora.
Sei que a notícia caiu que nem uma bomba.
"Temos de ir para o Brasil", exclamaram eles.
Já se tinha falado nisto anteriormente, por brincadeira ou por desespero. Nunca as palavras tinham sido actos.
Mas desta vez, tínhamos de ir para o Brasil. Mais do que dizer, tínhamos de ir para o Brasil, significava, na verdade, que tínhamos de ir para o Brasil.
Significava deixar vinte e cinco anos de existência para trás. Significava deixar amigos. Significava deixar amores. Significava deixar pensamentos. Significava deixar projectos. Significava deixar de ser eu, para ser eu, mas não mais o eu que era.
Significava deixar as pessoas, as conversas, os risos, as palhaçadas, as coisas sérias, tudo.
Mas nós temos de ir para o Brasil.
Ninguém nos ensina na escola ou em qualquer outra parte, a resolver algo como "temos de ir para o Brasil".
A notícia caiu com um peso enorme em cima de mim. Mas nós temos de ir para o Brasil.
Não quero deixar tudo aqui. Não quero perder-me aqui.
Mas nós temos de ir para o Brasil.

 

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Inicio do Blogue - Porquê e para quê?

Boa noite,

Na noite de 22 de Junho de 2012 inicio este blogue.

O que me traz aqui é, talvez, a decisão mais importante que me envolve a mim e a toda a minha família.
Decidimos mudar-nos para o Brasil.
Aqui irei relatar tudo o que eu achar relevante, será um guia mas ao mesmo tempo um desabafo, para família, amigos, conhecidos ou desconhecidos lerem, sem esconder nada do que se passa comigo nestes dias que correm.
Quero também, se tudo correr bem e chegarmos à mudança definitiva, continuar a escrever.
Daqui nasce o nome De Vera Cruz, nome dado pelo primeiro pedaço de chão dado pelos Portugueses aquando da descoberta do Brasil. O De porque, embora estando aqui, o sentimento é que, estranhamente, mesmo implicando deixar tudo para trás, é como se lá estivesse a reiniciar a minha vida. E a dos meus.

Espero que gostem, irei, como disse, escrever sempre que achar relevante.